Quase todos os dias ouço uma pergunta parecida com esta: “meus exames estão normais, mas não me sinto bem, por quê?”. Meus pacientes, como quase todos que procuram um médico, não estão bem. Muitas vezes nem tão mal assim, mas sentem que a saúde não é mais a mesma. O envelhecimento, os erros metabólicos de fundo genético, a alimentação e o estresse vão minando a saúde, em silêncio, com o passar do tempo.
O problema aparece num momento muito específico. Os sintomas começam, a pessoa procura o médico, faz os exames pedidos, e eles voltam “normais”. Coloco a palavra normais entre aspas de propósito, porque ela merece ser examinada com calma. Entender o que “normal” significa muda a forma como você lê o próprio boletim de saúde.
Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).
Meus exames estão normais: o que isso quer dizer
Normal, antes de virar palavra do dia a dia, é um conceito matemático. Vem da curva de Gauss, a distribuição normal da estatística, e significa uma coisa só: a média. Com o tempo, normalizamos o normal, e a média acabou virando sinônimo de “está bom”. Mas normal não é bom nem ruim: é apenas o centro da curva.
Quando o laboratório define a faixa de “normalidade”, ele pega um grupo grande de pessoas, principalmente da mesma idade e sexo, que foram fazer aquele exame, e tira a média. Em outras palavras, a faixa descreve onde cai a maioria de quem foi ao laboratório. Veja a consequência disso: quando o seu resultado está “normal”, isso quer dizer apenas que você está dentro da média de todos que realizaram o mesmo teste.
E isto costuma surpreender meus pacientes: estar na média não é, de forma alguma, sinônimo de estar saudável. Afinal, essas pessoas que foram ao laboratório estavam bem? Boa parte foi justamente porque algo a incomodava. A média da população, hoje, inclui muita gente que não vai bem. Portanto, se todos estão um pouco adoecidos, o “normal” passa a ser estar um pouco adoecido.
Posso não estar doente e, ainda assim, não estar saudável?
Exatamente. Essa é uma fronteira que a ciência médica vem revisando em várias frentes. Existe um espaço inteiro entre “doente” e “saudável” que os exames de rotina, lidos de maneira binária, simplesmente não enxergam. Para considerar alguém doente, em geral, é preciso ter exames francamente alterados. Mas há uma multidão de pessoas com todos os números “dentro da faixa” que, ainda assim, não estão saudáveis.
Por isso eu não leio um exame perguntando apenas “está dentro do normal?”. Procuro correlacionar um valor que está “normal baixo” com outro que está “normal alto”, cruzar esses dados com os sintomas e os sinais do paciente e, assim, entender o que de fato não está funcionando do ponto de vista metabólico. Sigo aqui uma máxima antiga da medicina: a clínica é soberana.
Se o sintoma está presente e o exame não o mostra, em geral é porque o exame certo era outro, ou porque o problema está num lugar que aquele teste não alcança. Um número isolado, lido de forma binária, não diz quase nada sozinho. É nesse entendimento da fisiologia humana que eu baseio o meu trabalho.
Como uma investigação mais profunda muda o jogo
Quando analisamos os erros metabólicos e as suas causas, abre-se um caminho real de cuidado. E aqui está o ponto que mais me importa: um exame alterado costuma ser apenas um sinal, a consequência de algo que está mais embaixo. Forçar esse número a voltar para a faixa, sem entender de onde ele veio, é varrer a sujeira para debaixo do tapete: o papel melhora, e a raiz continua intacta.
O caminho oposto é procurar a causa, para que a consequência se resolva por conta própria. Corrigir hábitos, ajustar a alimentação e repor o que está em falta, sempre de forma individualizada, para que o corpo retorne a um estado genuíno de saúde, e não apenas a um boletim de exames dentro da média. Se você quer se aprofundar nessa diferença entre “normal” e saudável, vale a leitura de seus exames estão mesmo normais?.
Faz-se medicina de verdade quando se compreendem as repercussões de cada resultado, correlacionadas com aquilo que o paciente sente. E, mais do que isso, quando se usam essas informações metabólicas para prevenir doenças e melhorar a saúde antes que algo se instale.
Se é assim que você tem se sentido, exames normais e um mal-estar que não passa, o próximo passo é investigar com profundidade, em vez de repetir o mesmo check-up de sempre.
Referências
- Wartofsky, L., & Dickey, R. A. (2005). The evidence for a narrower thyrotropin reference range is compelling. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 90(9), 5483–5488. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16148345
- Vermeulen, A., & Verdonck, G. (1992). Representativeness of a single point plasma testosterone level for the long term hormonal milieu in men. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 74(4), 939–942. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1548361








