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Micronutrientes e doenças cardiovasculares: o que o exame comum não vê

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Micronutrientes e doenças cardiovasculares — vitaminas e minerais que sustentam a saúde dos vasos e do coração | Instituto Avantgarde

A relação entre micronutrientes e doenças cardiovasculares raramente entra na conversa de quem quer cuidar do coração. O que o paciente espera discutir é quase sempre a mesma coisa: colesterol, pressão, talvez triglicerídeos. São marcadores importantes, e não vou diminuí-los. No entanto, ao longo dos anos, aprendi a desconfiar do que não está na mesa. Existe um território mais silencioso, raramente investigado, que tem ligação direta com o risco: as pequenas faltas de vitaminas e minerais que passam despercebidas porque o exame comum não foi feito para enxergá-las.

Costumo dizer aos meus alunos que minerais e vitaminas são a base de tudo. Para cada hormônio funcionar, o corpo precisa de enzimas e coenzimas, e essas peças se formam, em grande parte, a partir de minerais e de vitaminas. Portanto, quando essa base está em falta, o problema não fica restrito a um único lugar; ele se espalha. E o sistema cardiovascular, que depende de estrutura e de energia o tempo todo, sente esse tipo de carência de um jeito que a rotina laboratorial dificilmente captura.

Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).

O que é uma deficiência “subclínica”?

Vale começar por aqui, porque é um conceito que muda a forma de olhar. A maioria dos exames de rotina trabalha com faixas largas de “normalidade”. Ou você está dentro da faixa, ou está fora dela. Se está dentro, o laudo diz “normal” e a conversa encerra ali.

O problema é que existe uma zona intermediária. O nível de um nutriente pode estar baixo o suficiente para comprometer, aos poucos, o funcionamento do corpo, e ainda assim alto o suficiente para não cruzar a linha que dispara o alerta. É o que chamamos de deficiência subclínica. Ela não causa uma doença óbvia da noite para o dia, não aparece marcada em vermelho no papel, mas vai cobrando o seu preço de forma lenta. E, no que diz respeito ao coração, esse preço pode ser relevante.

Há ainda um detalhe que torna isso mais traiçoeiro. O nível de um mineral no sangue não é a mesma coisa que a sua reserva no corpo. O sangue precisa se manter equilibrado o tempo todo, então o organismo faz de tudo para mantê-lo na faixa, muitas vezes às custas do próprio estoque. É possível, por isso, ter um exame dentro do esperado e, ainda assim, carregar uma reserva baixa, construída lá atrás e raramente recomposta. É justamente essa reserva que diz o quanto o corpo está preparado para as demandas que virão, inclusive as do coração.

Estudo: uma revisão publicada no periódico Open Heart argumenta que a deficiência subclínica de magnésio, que o exame de sangue comum não detecta, é um fator associado ao adoecimento cardiovascular na população moderna. DiNicolantonio et al., Open Heart (2018)

Como os micronutrientes entram na saúde do coração

Aqui é importante eu ser preciso com as palavras, porque o tema é cercado de exagero. Micronutrientes não são remédios para o coração, e nenhum potinho de farmácia “previne infarto”. O que a ciência mostra é uma associação: deficiências de certas vitaminas e minerais aparecem ligadas a um risco cardiovascular maior, não como causa única, mas como parte de uma engrenagem.

E faz sentido fisiológico que seja assim. Vários desses nutrientes participam de processos que sustentam a saúde dos vasos e do músculo cardíaco. Alguns ajudam a conter o estresse oxidativo, aquele desgaste natural que, em excesso, agride a parede das artérias. Outros entram na regulação de funções vasculares ou fazem parte das defesas antioxidantes do próprio corpo. Não são protagonistas isolados; são peças de um sistema que precisa estar inteiro para funcionar bem. Quando uma delas está cronicamente em falta, o conjunto trabalha pior, e isso, no longo prazo, conversa com o coração.

Gosto de usar o silício como exemplo, porque quase ninguém fala dele. Toda estrutura de sustentação do corpo é feita de colágeno, e a artéria, que precisa abrir e fechar a cada batimento, depende muito dessa estrutura. O próprio músculo cardíaco também. Quando falta a matéria-prima para manter essa parede saudável, a estrutura vascular fica mais frágil, e isso aparece, na literatura, associado a um terreno mais propício a problemas. Não é o nutriente isolado que protege; é a falta dele que, somada a outras coisas, empobrece o conjunto.

Ponto-chave: um nutriente baixo associado ao risco cardiovascular não é, sozinho, a causa de um infarto, e repor um nutriente não “previne” nem “trata” doença do coração. Há associação, não promessa.

Repare que o raciocínio aqui não é “tome o nutriente X e proteja o seu coração”. É outro: o corpo é um sistema integrado, e olhar só para o colesterol é enxergar uma peça enquanto o resto do mecanismo permanece no escuro. O magnésio ajuda a ilustrar essa lógica de conjunto. Além do papel estrutural, ele participa da regulação de sinais metabólicos, e uma ingestão baixa aparece, em estudos de acompanhamento, associada a um terreno metabólico mais desfavorável ao longo dos anos.

Então devo sair suplementando micronutrientes para o coração?

Não. E faço questão de ser claro nisso, porque é o erro mais comum. Identificar que esse terreno existe não é o mesmo que autorizar uma prateleira de suplementos por conta própria. Isso, no melhor dos casos, é dinheiro jogado fora e, no pior, troca um desequilíbrio por outro. Excesso também faz mal, e mais nutriente não é sinônimo de mais saúde.

A lógica correta é investigativa, não de balcão. Repor mineral não é pegar a lista de tudo o que existe e tomar de uma vez, na esperança de acertar. É entender qual é, de fato, o nutriente que o seu corpo tem mais dificuldade de manter, e em que medida ele pesa no seu caso. Nada disso é igual para todo mundo. Por isso exige uma avaliação que vá além da faixa larga do exame comum, que olhe o seu metabolismo, a sua história e os seus sintomas como um todo. Não à toa, muitas dessas carências caminham juntas com outros sinais silenciosos, um assunto que aprofundo em a deficiência de vitaminas e minerais e seus impactos na saúde.

O princípio que eu gostaria que ficasse é simples: “deu normal no exame” não é o mesmo que “está tudo certo no nível em que importa”. A saúde do coração é mais ampla do que duas ou três linhas de um laudo, e cuidar dela bem significa investigar o que o exame comum não foi feito para ver. É esse olhar mais fino que praticamos no Instituto Avantgarde.

Se você quer entender o seu coração além do colesterol e da pressão, o próximo passo é investigar o seu caso com profundidade, em vez de repetir o mesmo check-up de sempre. Uma avaliação individualizada mostra onde o seu corpo precisa de ajuste.

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Referências

  1. DiNicolantonio, J. J., O’Keefe, J. H., & Wilson, W. (2018). Subclinical magnesium deficiency: a principal driver of cardiovascular disease and a public health crisis. Open Heart, 5(1), e000668. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29387426
  2. He, K. et al. (2006). Magnesium intake and incidence of metabolic syndrome among young adults. Circulation, 113(13), 1675–1682. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16567569

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