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Irisina, o hormônio do exercício, e por que ele some

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A irisina, o hormônio do exercício, é uma substância com nome de deusa que o próprio músculo fabrica quando você se movimenta. Recebo com frequência, no consultório, pessoas que contam, meio frustradas, que o exercício “já não faz o mesmo efeito de antes”. Treinam igual, comem parecido, mas a balança travou e a disposição não voltou. Por trás dessa queixa há um capítulo pouco conhecido da fisiologia, e ele passa justamente por essa molécula.

Antes de chegar a ela, gosto de assentar uma ideia. Exercício é, antes de tudo, gasto de energia, e aqui não vale a lógica do “quanto mais, melhor”. Para a maioria das pessoas, algo em torno de meia hora a 45 minutos por dia já cumpre o seu papel. O excesso, por outro lado, sobrecarrega. Nada disso, no entanto, anula a beleza do que acontece por dentro quando você treina na medida certa.

Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).

O que é a irisina, o hormônio do exercício

A irisina é um hormônio ainda relativamente novo na literatura, mas já bastante estudado. O que mais chama atenção nela é a origem. Ela é liberada pelo músculo esquelético em resposta ao exercício físico. Ou seja, quando você se movimenta, o próprio músculo passa a se comportar como uma glândula.

Essa substância então conversa com o resto do corpo, incluindo cérebro, coração e o tecido adiposo. As evidências disponíveis associam o aumento da irisina a melhoras na composição de gordura corporal e na sensibilidade à insulina. Por isso ela ajuda a explicar, em parte, por que o exercício é uma das intervenções mais poderosas para o equilíbrio do metabolismo. Não é só gastar caloria. É acionar uma sinalização hormonal.

Estudo: a irisina foi descrita em 2012 como uma miocina que estimula o “escurecimento” da gordura branca e a queima de energia. Boström et al., Nature (2012). Ainda assim, a magnitude do efeito em humanos e a forma de medi-la no sangue seguem em debate. Albrecht et al., Scientific Reports (2015)

Faço questão dessa ressalva. A ciência da irisina é promissora, mas ainda em construção. A própria dosagem no sangue é tecnicamente discutida entre os pesquisadores, e parte dos primeiros resultados foi revista. Portanto, ela é uma pista valiosa para entender o exercício, não uma medida pronta para se acompanhar em exame de rotina.

Por que o efeito do exercício parece enfraquecer com o tempo

Este é o trecho da fisiologia que considero mais interessante, e o que costuma aliviar muitos pacientes que se culpam. Apesar de a irisina subir com o exercício, mantido sempre o mesmo estímulo, a tendência é a resposta diminuir aos poucos. O corpo, na sua sabedoria de economizar energia, se adapta ao que vira rotina.

Aquele treino que no início transformava a sua disposição vai, aos poucos, sendo “aprendido” pelo organismo. E aqui há um ponto que considero ainda mais importante do que a variação do treino: a resposta ao esforço depende de o seu motor estar funcionando. Quem produz energia na célula é a mitocôndria, e é ela que decide se o esforço vira disposição, gordura queimada e músculo, ou apenas cansaço.

Ponto-chave: quando o exercício “para de funcionar”, o problema raramente está na disciplina. Está no estímulo, que precisa ser reavaliado, e no terreno metabólico em que esse estímulo cai.

Isso não significa que o exercício deixou de valer a pena. Significa que o estímulo precisa ser reavaliado. Uma das maneiras de manter essa produção viva é a variação inteligente do treino, sempre acompanhada por um bom profissional, e não improvisada. O objetivo é sair do piloto automático sem se machucar, respeitando o momento do seu corpo.

E os compostos que “estimulam” a irisina?

Existe um interesse crescente por substâncias que possam favorecer essa via. Uma delas é o ácido ursólico, um composto fitoterápico estudado por induzir respostas que lembram as do jejum, com liberação de fatores de proteção do músculo. É um campo fascinante, mas peço cautela com a leitura fácil.

Mesmo um composto de origem natural não age igual para todo mundo. A resposta depende do seu metabolismo, do seu contexto hormonal e do seu histórico. Por isso, a pergunta certa raramente é “o que eu tomo?”. É “o que o meu corpo precisa?”. E essa é uma pergunta que só se responde investigando cada caso. Esse mesmo raciocínio vale para a prateleira da academia, como explico em por que a suplementação para hipertrofia precisa ser individual.

Se o seu corpo parece ter parado de responder ao esforço que você faz, o caminho não é treinar no piloto automático nem copiar a receita de outra pessoa. É entender o seu próprio terreno metabólico com uma avaliação individualizada.

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Referências

  1. Boström, P. et al. (2012). A PGC1-α-dependent myokine that drives brown-fat-like development of white fat and thermogenesis. Nature, 481(7382), 463–468. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22237023
  2. Perakakis, N. et al. (2017). Physiology and role of irisin in glucose homeostasis. Nature Reviews Endocrinology, 13(6), 324–337. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28211512
  3. Albrecht, E. et al. (2015). Irisin – a myth rather than an exercise-inducible myokine. Scientific Reports, 5, 8889. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25749243

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