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Relação entre obesidade e câncer: por que não é só o peso

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Obesidade e câncer — por que a composição corporal importa mais que o peso na balança | Instituto Avantgarde

A relação entre obesidade e câncer está bem estabelecida na literatura, mas é mais profunda do que o número que aparece na balança. Quando falamos em manter o peso adequado para reduzir o risco de doenças crônicas, costumo pedir aos meus pacientes que esqueçam, por um instante, o número da balança. Não estamos falando apenas de peso ou do aspecto de “ser magro”. O objetivo que devemos ter em mente é outro, mais profundo: a proporção da composição corporal, o equilíbrio entre massa de gordura, massa muscular, massa óssea e quantidade de água no corpo.

Faço questão de uma ressalva desde o início: o câncer é multifatorial, e nenhum hábito isolado garante prevenção. O que a ciência descreve é influência sobre o risco, não causa única nem promessa. E isso, por si só, já é razão suficiente para cuidar do terreno em que o corpo funciona.

Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).

Por que o foco não deve ser só o peso?

Porque dois corpos com o mesmo peso podem ter terrenos metabólicos completamente diferentes. A balança não distingue músculo de gordura, e essa distinção faz toda a diferença quando o assunto é risco e prevenção.

Está bem documentado que vários tipos de câncer têm a obesidade entre seus fatores de risco, em especial os da área ginecológica, como o de mama e o de endométrio. O ponto-chave é a sobreposição da massa de gordura sobre a massa muscular: o tecido gorduroso em excesso pode produzir substâncias associadas ao surgimento e à proliferação dessas doenças. Faço questão de dizer “associada a”, e não “causa direta”, porque essa distinção muda tudo. O que existe é influência sobre a probabilidade, e cuidar disso é agir sobre o que está ao nosso alcance.

Estudo: uma revisão do grupo de trabalho da IARC, publicada no New England Journal of Medicine, associou o excesso de gordura corporal a um risco maior de diversos tipos de câncer. Lauby-Secretan et al., NEJM (2016)

O que liga a obesidade e o câncer no metabolismo?

Vale ir um passo além do tecido gorduroso em si, porque o elo costuma estar no funcionamento da insulina. O excesso de gordura corporal anda lado a lado com a resistência à insulina e a hiperinsulinemia, um estado em que o corpo passa a conviver com níveis cronicamente elevados desse hormônio e da própria glicose no sangue. Esse ambiente de hiperglicemia e hiperinsulinemia aparece associado, na literatura, a diversas doenças metabólicas, e os cânceres de mama, de endométrio e de intestino estão justamente entre os que compartilham esse terreno.

Por isso, na prática, não olho apenas para o peso ou para a circunferência da cintura. Marcadores como a insulina de jejum, os triglicerídeos e a hemoglobina glicada ajudam a entender o terreno metabólico de cada pessoa, mesmo quando a glicemia de jejum ainda parece dentro do esperado. São esses sinais que muitas vezes revelam um risco que a balança, sozinha, não mostra. E reforço: estamos falando de fatores de risco e de influência sobre a probabilidade, nunca de causa única nem de garantia de prevenção.

Vale ainda entender por que a gordura visceral pesa tanto nessa conta. Diferentemente da gordura logo abaixo da pele, aquela que se acumula em volta dos órgãos é metabolicamente ativa: ela participa de um estado de inflamação de baixo grau que se mantém em silêncio por anos. Esse ambiente inflamatório crônico, somado ao excesso de insulina, é justamente o terreno que a literatura associa a um risco aumentado. Não se trata, portanto, de demonizar a gordura em si, e sim de compreender que a sua distribuição e a companhia da resistência à insulina mudam o significado do quadro. Duas pessoas com o mesmo peso podem ter riscos bem diferentes conforme onde e como essa gordura se acumula.

Ponto-chave: cuidar da composição corporal é cuidar do terreno. Não para garantir que nada vai acontecer, mas para colocar o corpo nas melhores condições possíveis, na prevenção e no enfrentamento de um tratamento.

E o outro extremo: a desnutrição?

Aqui está um ponto que considero igualmente importante e que muita gente desconhece. O risco não está apenas no excesso. A desnutrição, ou seja, não ter massa magra adequada, também compromete o paciente. Pacientes desnutridos tendem a apresentar, com frequência aumentada, respostas inadequadas ou efeitos adversos diante do tratamento oncológico, quando este precisa ser instituído.

A massa muscular preservada, ao contrário, está associada a uma melhor adaptação metabólica à terapia. Por isso o objetivo nunca é simplesmente “emagrecer”, e sim alcançar uma composição corporal equilibrada, com músculo suficiente para sustentar o organismo nos momentos mais exigentes. O reforço de hábitos saudáveis, como alimentação adequada, atividade física e uma rotina equilibrada, deve estar presente na conduta, seja ela preventiva ou de acompanhamento. A alimentação, aliás, é parte central desse cuidado, um tema que aprofundo em alimentação x câncer.

Gosto de lembrar aos meus pacientes que hábitos saudáveis não fazem de você diferente de ninguém, mas fazem, sim, você melhor para você mesmo. Esse cuidado com o terreno metabólico, na prevenção e no acompanhamento, é o que praticamos no Instituto Avantgarde.

Se você quer entender a sua composição corporal de verdade e o que ela diz sobre o seu cuidado, o próximo passo é investigar o terreno metabólico com profundidade, em vez de se guiar apenas pela balança. Uma avaliação individualizada mostra onde ajustar.

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Referências

  1. Lauby-Secretan, B. et al. (2016). Body Fatness and Cancer — Viewpoint of the IARC Working Group. New England Journal of Medicine, 375(8), 794–798. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27557308
  2. Calle, E. E., & Kaaks, R. (2004). Overweight, obesity and cancer: epidemiological evidence and proposed mechanisms. Nature Reviews Cancer, 4(8), 579–591. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15286738

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