Quando falamos de alimentação e câncer, existe uma frase que repito aos meus pacientes desde o primeiro encontro: uma nutrição adequada e apropriada para cada fase da vida é indispensável a todos, seja para manter a saúde, seja para restaurá-la quando adoecemos. No paciente oncológico, essa verdade ganha um peso ainda maior. A alimentação passa a ser parte do cuidado, não um detalhe à parte. Quero explicar por quê, sem prometer o que a comida não pode entregar sozinha.
Faço questão de começar por aqui porque o tema atrai muita promessa fácil. Nenhum alimento cura o câncer, e nenhum cardápio substitui a medicina. O que uma boa nutrição faz é diferente, e nem por isso menos importante. Ela sustenta o organismo durante uma das fases mais exigentes da vida e oferece melhores condições para que o corpo atravesse a terapia. É esse papel, real e mensurável, que vale a pena entender.
Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).
A alimentação cura o câncer?
Começo desfazendo um mal-entendido comum, porque ele importa. A alimentação não cura o câncer e não deve ser apresentada como tratamento isolado. O que ela faz é sustentar o corpo durante o percurso, e isso já é muita coisa. Os nutrientes são determinantes para a recuperação, a reconstrução e o reparo de células, órgãos e tecidos.
Nosso sistema de defesa depende diretamente daquilo que extraímos dos alimentos. Por isso não devemos subestimar a relevância de uma alimentação apropriada ao paciente oncológico. O papel do cuidado nutricional é orientar cada pessoa sobre os nutrientes básicos às suas necessidades atuais, mostrando onde encontrá-los e por que importam. Tudo de forma personalizada, portanto, nunca como cardápio mágico.
Por que o metabolismo da célula importa tanto
Aqui vale entender algo sobre a fisiologia da própria célula doente. A célula tumoral tem uma característica metabólica peculiar. Ela perde, em boa parte, a capacidade de usar gordura como fonte de energia e passa a depender muito mais da glicose, ou seja, do açúcar que vem dos carboidratos. Esse comportamento é descrito na literatura há décadas.
Quem faz esse trabalho de energia dentro de cada célula é a mitocôndria, a estrutura que funciona como o motor do organismo. É ela, também, que coordena a renovação celular. Um terreno metabólico sobrecarregado, com excesso crônico de glicose, está associado a um pior funcionamento dessa maquinaria. Por isso reforço sempre: cuidar do que entra no prato é cuidar do ambiente em que essas células trabalham, e não uma promessa de cura.
Como a alimentação e o câncer se cruzam pela inflamação
Aqui entra um conceito que considero central: o estado inflamatório do organismo. Alguns alimentos estão associados a um aumento desse status inflamatório; outros, à sua redução. Reduzir os primeiros e aumentar o consumo dos que ajudam a baixar a inflamação é uma estratégia bem-vinda para complementar o tratamento. Os carboidratos de alto índice glicêmico, os açúcares e os ultraprocessados estão justamente entre os que mais sobrecarregam esse equilíbrio.
Faço questão da palavra complementar. Não se trata de substituir radioterapia, quimioterapia ou cirurgia, e sim de oferecer ao corpo melhores condições para atravessar esses tratamentos. O câncer é uma doença multifatorial, que reúne fatores genéticos, metabólicos e ambientais. Por isso a alimentação atua como um dos pilares do cuidado, no entanto nunca como solução isolada.
Por que a composição corporal entra nessa conta
Quando somamos uma alimentação adequada à atividade física resistida, assistida por um profissional, conseguimos melhorar bastante a composição corporal do paciente. Ou seja, aumentar a massa magra e reduzir a massa de gordura. E isso é fisiologia, muito além de estética.
Músculo e gordura não são tecidos inertes. Ambos produzem substâncias que podem ajudar ou prejudicar o sistema imunológico. A proporção entre eles influencia a capacidade do paciente de construir massa magra e está associada, inclusive, à própria resposta aos tratamentos. Um seguimento nutricional com avaliações de composição corporal, como a bioimpedância, deve fazer parte do cuidado. Não à toa, o excesso de peso é, por si só, um fator relevante, como discuto na relação entre obesidade e câncer, que se conecta diretamente a este assunto.
O que eu gostaria que ficasse
Um acompanhamento em conjunto com um nutricionista que domine a área oncológica é, na minha experiência, indispensável. E reforço o princípio que guia tudo isso. Um excelente resultado costuma ser fruto da união de uma excelente equipe multiprofissional, portanto, não de uma única intervenção isolada.
Se você ou alguém próximo enfrenta um tratamento oncológico e quer integrar o cuidado nutricional a essa jornada, o próximo passo é conversar com quem faz isso em equipe. Uma avaliação individualizada mostra onde o corpo precisa de suporte em cada fase.
Referências
- Arends, J. et al. (2017). ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clinical Nutrition, 36(1), 11–48. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27637832
- Ravasco, P. (2019). Nutrition in Cancer Patients. Journal of Clinical Medicine, 8(8), 1211. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31416154








