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Ronco e apneia do sono: o sinal que o seu metabolismo dá

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Ronco e apneia do sono — ilustração da passagem de ar comprimida pela gordura no pescoço durante o sono | Instituto Avantgarde

Poucos sintomas são tão ignorados quanto o ronco. Na minha rotina de consultório, eu o trato como um aviso, não como um detalhe. Muitas vezes, ele é o primeiro passo de um caminho que pode levar à apneia do sono. Ou seja, não é apenas o incômodo de quem dorme ao lado.

A maioria das pessoas encara o ronco como um hábito. Eu enxergo diferente. Por trás dele quase sempre existe gordura acumulada onde não deveria. Além disso, esse acúmulo conversa diretamente com a forma como o corpo lida com o açúcar. Portanto, o ronco fala do metabolismo inteiro.

Neste texto, quero explicar por que o ronco merece atenção. A ideia não é assustar. É mostrar o mecanismo, para que você saiba a hora certa de investigar.

Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).

O ronco é um sinal, não um detalhe

Deixe eu começar pelo essencial. O ronco acontece quando o ar encontra dificuldade para passar pelas vias respiratórias durante o sono. Esse atrito faz vibrar os tecidos da garganta. Então nasce o som que tanto atrapalha a noite.

Na prática, esse ruído é uma pista. Ele mostra que o oxigênio não chega ao cérebro com a folga que deveria. Por isso eu nunca trato o ronco como algo banal. Ele costuma ser o primeiro sintoma visível de que o corpo já está metabolicamente sobrecarregado.

Do ronco à apneia do sono: o que muda

O ronco e a apneia do sono estão no mesmo caminho, em degraus diferentes. No ronco, o ar ainda passa, mesmo que com esforço. Na apneia, a passagem chega a fechar por instantes, e a respiração para várias vezes por noite.

Aqui preciso ser claro com você. A apneia do sono é um diagnóstico médico. Quando há indicação, ela se confirma por um exame chamado polissonografia. Além disso, é uma condição que pode ser grave, porque priva o corpo de oxigênio de forma repetida. Não se trata de exagero.

Justamente por isso, o ronco frequente não deveria ser ignorado. Ele pode ser o aviso que antecede um problema maior. Ou seja, escutar esse sinal cedo é uma forma de cuidado.

A gordura visceral e a resistência à insulina por trás do ronco

Agora vamos à causa que mais vejo no consultório. Na maioria dos casos, o ronco acontece por acúmulo de gordura visceral na região da garganta. Essa gordura comprime as vias respiratórias. Assim, o ar passa com mais dificuldade e a vibração aparece.

Essa gordura visceral não é a gordura que se pega com a mão. Ela se instala entre os órgãos e no pescoço, muitas vezes em pessoas que nem se consideram acima do peso. Portanto, existe gente magra por fora e comprometida por dentro.

O ponto central é o que sustenta esse acúmulo. Ele está diretamente ligado à resistência à insulina. Quando a insulina para de funcionar bem, o corpo inflama e passa a estocar gordura visceral. Ou seja, o ronco é, no fundo, um reflexo desse desequilíbrio metabólico.

Estudo: em pesquisa publicada no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, a apneia obstrutiva do sono mostrou-se associada à resistência à insulina de forma independente do peso corporal. Ip et al. (2002)

Repare como as peças se encaixam. A gordura visceral aparece cedo, muito antes de a balança acusar. Um estudo clássico já havia ligado a apneia do sono à obesidade visceral e à resistência à insulina em conjunto, e não a um fator isolado (Vgontzas et al., 2000). Por isso, o ronco pede um olhar sobre o metabolismo, não apenas sobre a garganta.

Por que a apneia do sono conversa com o coração e o açúcar

Esse é o ponto que mais me preocupa. A resistência à insulina não fica parada. Com o tempo, ela abre a porta para a apneia do sono, a hipertensão, o diabetes tipo 2 e as doenças cardiovasculares. São problemas diferentes com uma raiz em comum.

O sono ruim, aliás, alimenta esse ciclo. Dormir mal aumenta a resistência à insulina, que agrava a gordura visceral, que piora o ronco. Assim, o quadro se retroalimenta noite após noite. Por isso eu insisto tanto em qualidade de sono.

Estudo: um acompanhamento prospectivo publicado no New England Journal of Medicine ligou os distúrbios respiratórios do sono ao aumento do risco de desenvolver hipertensão ao longo dos anos. Peppard et al. (2000)
Ponto-chave: tratar o ronco não é silenciar o barulho. É investigar a causa metabólica que ele denuncia, antes que ela vire uma doença com nome.

O ronco como oportunidade de agir cedo

Agora a boa notícia. O ronco também é uma oportunidade. Ele avisa enquanto o problema ainda é pequeno e enquanto o corpo ainda responde bem. Ou seja, quem escuta esse sinal ganha tempo.

Não é preciso adoecer para cuidar. Uma investigação bem feita mostra onde o metabolismo travou e por que a gordura visceral se instalou. Se você quer entender por que vale a pena olhar esses sinais cedo, vale a leitura sobre o check-up metabólico e as razões para agendar já o seu, que aprofunda essa lógica de prevenção.

Quero deixar honesto até onde vai a minha proposta. Eu não prometo reverter apneia, e nem existe fórmula mágica. O que faço é investigar a causa metabólica, cuidar dela e, com isso, buscar melhorar a qualidade do sono e da saúde como um todo.

Se você ronca com frequência e sente que algo não vai bem, o próximo passo é simples. Investigue o seu caso com profundidade, em vez de conviver com o sintoma. Uma avaliação individualizada mostra onde o seu corpo precisa de ajuste.

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Referências

  1. Ip, M. S. et al. (2002). Obstructive sleep apnea is independently associated with insulin resistance. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, 165(5), 670–676. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11874812
  2. Vgontzas, A. N. et al. (2000). Sleep apnea and daytime sleepiness and fatigue: relation to visceral obesity, insulin resistance, and hypercytokinemia. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 85(3), 1151–1158. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10720054
  3. Peppard, P. E. et al. (2000). Prospective study of the association between sleep-disordered breathing and hypertension. The New England Journal of Medicine, 342(19), 1378–1384. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10805822

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