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Queda de cabelo: o que investigar antes de tratar

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Queda de cabelo — ilustração do fio ligado ao metabolismo, hormônios e nutrição do corpo | Instituto Avantgarde

A queda de cabelo raramente começa no couro cabeludo. Ela começa antes, dentro do metabolismo, dos hormônios, da nutrição ou do estresse do corpo. O fio que cai no travesseiro é, quase sempre, o aviso final de um processo que vinha de longe. Por isso, olhar só para a raiz do fio costuma ser olhar tarde demais.

Quando o cabelo começa a cair, o reflexo é procurar solução no espelho. Shampoo caro, fórmula pronta, suplemento genérico de farmácia. O problema é que nada disso responde à pergunta certa. Por que o corpo parou de sustentar aquele fio? Enquanto essa pergunta fica sem resposta, o resto vira tentativa no escuro.

Neste texto, eu explico o que costuma estar por trás da queda. Além disso, mostro por que ela precisa ser investigada como um sinal, e não tratada como um problema só de cabelo.

Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).

A queda de cabelo é um sinal, não um diagnóstico

O cabelo é um tecido de renovação rápida. Cada fio nasce, cresce por anos, descansa e cai, num ciclo constante. Perder alguns fios por dia é normal. O que não é normal é a queda aumentar de repente e não parar.

Aqui entra um ponto que explico muito no consultório. O corpo tem prioridades. Quando falta energia, falta matéria-prima ou o organismo entra em alerta, ele corta primeiro o que não é essencial para manter você vivo. O cabelo está no topo dessa lista. Por isso, ele costuma ser um dos primeiros sinais de que algo maior saiu do lugar.

Ou seja, a queda quase nunca é a doença. Ela é o recado. Tratar apenas o couro cabeludo é silenciar o alarme sem apagar o incêndio.

Tireoide: quando o fio para de crescer

A tireoide comanda o ritmo do corpo inteiro, e isso inclui o crescimento do cabelo. Quando ela trabalha devagar, o organismo desacelera tudo. O fio cresce menos, fica seco e quebradiço, e a queda aumenta.

Esse quadro raramente vem sozinho. Costuma vir junto com unhas fracas, pele seca, sono ruim e uma sensação de energia que nunca volta ao normal. Existe até um sinal clássico que procuro no exame: a rarefação da parte final da sobrancelha, mais perto da têmpora. Muitas vezes, ele aparece antes de a pessoa perceber o problema.

Estudo: em cultura de folículos humanos, os hormônios da tireoide agiram diretamente sobre o fio, prolongando a fase de crescimento e estimulando as células da raiz. van Beek et al., J Clin Endocrinol Metab (2008)

Por isso, avaliar a tireoide de forma completa muda o jogo. Não basta um exame isolado dizer que está “normal”. É preciso entender se ela está de fato entregando hormônio suficiente para o corpo, e para o cabelo.

Ferro e ferritina: o estoque que sustenta o cabelo

O folículo do cabelo é uma das estruturas que mais consomem energia no corpo. Para produzir energia, ele precisa de oxigênio. E quem carrega oxigênio é o ferro. Quando o ferro falta, a raiz do fio é uma das primeiras a sentir.

Aqui mora um erro comum. Muita gente faz o hemograma, não tem anemia e acha que está tudo certo. No entanto, o hemograma pode estar normal enquanto o estoque de ferro já está baixo. Esse estoque tem nome: ferritina. Ela cai bem antes de a anemia aparecer. Portanto, dá para ter cabelo caindo por falta de ferro com um hemograma aparentemente perfeito.

Estudo: em mulheres com queda difusa e não cicatricial, níveis mais baixos de ferritina apareceram associados ao quadro de perda de cabelo. Aslam et al., Cureus (2022)

Quando o estoque baixa, o corpo faz uma escolha. Ele manda o ferro disponível para as funções vitais e deixa o cabelo em segundo plano. O fio então entra em repouso e cai algumas semanas depois. É a chamada queda difusa, aquela que espalha por toda a cabeça.

Vitamina D, hormônios e o estresse que derruba o fio

A vitamina D não serve só para o osso. O folículo do cabelo tem receptores para ela, e esse receptor participa do ciclo de renovação do fio. Quando a vitamina D vive baixa, esse ciclo perde parte do estímulo que o mantém saudável.

Ponto-chave: raramente existe uma causa única. Tireoide, ferro, vitamina D, hormônios e estresse costumam se somar. Por isso a queda precisa ser lida em conjunto, e não fator por fator.

O estresse é outro gatilho poderoso, e o corpo não distingue o estresse da rotina do estresse de uma doença. Diante de um susto grande, uma cirurgia, um pós-parto ou meses de pressão contínua, o organismo empurra muitos fios para a fase de repouso ao mesmo tempo. O detalhe cruel é o atraso. A queda costuma aparecer dois ou três meses depois do gatilho, quando a pessoa já nem lembra do que passou.

Há ainda o pano de fundo da nutrição. Proteína, zinco e vitaminas do complexo B formam a base que sustenta a produção do fio. Sem essa base, nada funciona bem. Se você quer entender como essas faltas silenciosas afetam o corpo inteiro, vale a leitura sobre a deficiência de vitaminas e minerais e seus impactos na saúde, que aprofunda esse ponto.

Por que a queda de cabelo precisa ser investigada

Chegamos ao ponto central. Cada causa que citei pede uma conduta diferente. A tireoide não se resolve como a falta de ferro. O estresse não se resolve como a vitamina D baixa. Ou seja, não dá para acertar sem antes descobrir o que está por trás.

É exatamente aí que a fórmula pronta falha. Ela trata todo mundo igual, como se todo cabelo caísse pelo mesmo motivo. O corpo não funciona assim. Por isso, o suplemento que ajudou o seu vizinho pode não fazer nada por você, ou até atrapalhar.

Uma boa investigação começa por uma conversa longa sobre a sua história, o seu momento e os seus sintomas. Depois, cruza tudo com exames lidos em conjunto: a tireoide de forma funcional, o ferro e a ferritina, a vitamina D, o quadro hormonal e os marcadores de inflamação. Assim, a causa deixa de ser um palpite e passa a ter nome.

Não prometo que todo fio perdido volta. Seria desonesto. O que eu garanto é direção. Entender por que o cabelo caiu é o único caminho para agir sobre a causa certa, em vez de gastar tempo e dinheiro no escuro.

Se a sua queda não passa e você já tentou de tudo sem resposta, o próximo passo é investigar o seu caso a fundo. Uma avaliação individualizada mostra onde o seu corpo deixou de sustentar o fio.

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Referências

  1. Trost, L. B., Bergfeld, W. F., & Calogeras, E. (2006). The diagnosis and treatment of iron deficiency and its potential relationship to hair loss. Journal of the American Academy of Dermatology, 54(5), 824–844. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16635664
  2. van Beek, N. et al. (2008). Thyroid hormones directly alter human hair follicle functions: anagen prolongation and stimulation of both hair matrix keratinocyte proliferation and hair pigmentation. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 93(11), 4381–4388. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18728176
  3. Gerkowicz, A. et al. (2017). The role of vitamin D in non-scarring alopecia. International Journal of Molecular Sciences, 18(12), 2653. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29215595
  4. Aslam, M. F. et al. (2022). The association of serum ferritin levels with non-scarring alopecia in women. Cureus, 14(12), e32123. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36601197

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