A bioimpedância na avaliação da composição corporal é um exame que eu uso e gosto, mas que precisa ser entendido antes de ser levado a sério demais. Quase toda semana alguém chega ao consultório segurando o papel, preocupado: “Doutor, deu que eu tenho muita gordura, mas eu treino e como bem, não entendo.” E quase sempre a minha primeira pergunta não é sobre a gordura. É outra: você tinha bebido água antes? Tinha treinado? Que horas era?
Quase sempre a pessoa me olha surpresa, porque ninguém tinha avisado que essas coisas mudam o resultado. E mudam bastante. Por isso a pergunta que de fato importa não é apenas quanto o exame deu, e sim o quanto aquele número é confiável naquele dia. Entender como o aparelho chega ao resultado é o que separa um dado útil de um susto desnecessário.
Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).
Como o aparelho “sabe” quanta gordura eu tenho
A resposta surpreende muita gente: ele não sabe, não diretamente. O aparelho faz passar pelo corpo uma corrente elétrica fraquíssima, que você nem sente, e mede a resistência que ela encontra pelo caminho. Tecidos cheios de água e sais minerais, como o músculo, conduzem a corrente com facilidade. A gordura, ao contrário, oferece resistência.
A partir dessa resistência, e de dados como peso, altura, idade e sexo, o aparelho calcula uma estimativa de quanto do seu corpo é gordura, músculo e água. Repare na palavra: calcula. A bioimpedância não fotografa a sua gordura como faria uma tomografia. Ela faz uma conta a partir de um sinal elétrico. E toda conta depende de premissas que nem sempre batem com a realidade do seu corpo naquele momento.
Por que o mesmo corpo dá resultados diferentes
Porque a premissa central do exame, a de que a água do corpo está distribuída de um jeito padrão, raramente é perfeita. A hidratação é o exemplo mais claro. Se você chega desidratado, o aparelho tende a superestimar a sua gordura. Se está com líquido retido, acontece o oposto.
Por isso o mesmo corpo, medido de manhã em jejum e à tarde depois de almoçar e treinar, pode entregar números bem diferentes, sem que um grama de gordura tenha mudado de lugar. Outros fatores entram na mesma conta:
- Refeição e líquidos recentes, que alteram a água corporal momentânea.
- Exercício intenso pouco antes do exame.
- Medicamentos que mexem com a retenção de líquido.
- A qualidade e a calibração do aparelho, já que equipamentos ruins entregam leituras instáveis.
- O posicionamento e a aplicação corretos durante o teste.
Há ainda grupos em que o exame escorrega com mais facilidade: atletas com muita massa muscular, idosos com perda importante de músculo, pessoas com obesidade acentuada ou com inchaço. Nesses casos, portanto, o número precisa ser lido com cuidado redobrado.
O que a bioimpedância na composição corporal não enxerga
Há uma limitação que considero a mais importante de todas. A bioimpedância comum não diferencia onde está a sua gordura. E isso importa muito. A gordura que se acumula logo abaixo da pele é uma coisa. A gordura visceral, aquela que se instala ao redor dos órgãos, no fundo do abdome, é outra história, porque é ela que tem ligação mais forte com risco metabólico e cardiovascular.
Duas pessoas podem ter o mesmo percentual de gordura no papel e um risco de saúde completamente diferente, a depender de onde essa gordura mora. O exame, sozinho, não conta essa parte. Por isso ele é uma peça da avaliação, e não o diagnóstico inteiro.
Então a bioimpedância serve ou não serve
Serve, e muito, desde que cada coisa fique no seu lugar. Como acompanhamento, feita sempre nas mesmas condições, de manhã, em jejum, no mesmo aparelho, ela é ótima para enxergar a tendência ao longo do tempo. Estou ganhando músculo? Estou perdendo gordura? A direção da seta vale mais do que o número absoluto de um dia só.
O erro é tratar uma única medição, feita em qualquer horário e condição, como uma sentença sobre o corpo. Vejo pessoas se desesperarem com um resultado ruim que era, na verdade, um copo d’água a menos. Se você quer entender o outro lado da moeda, o que esse exame de fato mostra quando bem usado, aprofundo em a avaliação com bioimpedância, que trata do que ele revela. Saber o que ela mede, o que não mede e como interpretá-la é justamente o tipo de avaliação que fazemos no Instituto Avantgarde.
Se você já recebeu um resultado que não bateu com o que sente sobre o próprio corpo, o próximo passo é interpretar esse número dentro do seu contexto, e não isolado numa folha. Uma avaliação de verdade coloca o exame no lugar certo.
Referências
- Kyle, U. G. et al. (2004). Bioelectrical impedance analysis—part II: utilization in clinical practice. Clinical Nutrition, 23(6), 1430–1453. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15556267
- Lukaski, H. C. (2013). Evolution of bioimpedance: a circuitous journey from estimation of physiological function to assessment of body composition and a return to clinical research. European Journal of Clinical Nutrition, 67(Suppl 1), S2–S9. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23299867








