A deficiência de vitamina D e o emagrecimento se cruzam com mais frequência do que a maioria imagina, e esse encontro ajuda a explicar um relato que escuto sempre: “doutor, eu faço tudo certo, corto, treino, conto caloria, e o peso simplesmente não desce”. Não duvido da pessoa. Muitas vezes ela está mesmo fazendo o esperado. O problema é que o corpo não é uma planilha de entra e sai de calorias.
Ele é um sistema regulado por hormônios e mensageiros químicos. Quando uma dessas peças está fora de lugar, ele pode literalmente trabalhar contra a sua dieta. Uma dessas peças, surpreendentemente, é a vitamina D. Entender como a falta dela atrapalha muda a forma de encarar a balança e, mais importante, muda o que se decide fazer a respeito.
Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).
A vitamina D não é só para os ossos
Essa é a fama dela, mas é uma fama incompleta. Por muito tempo a vitamina D foi vista apenas como guardiã dos ossos. Hoje sabemos que ela se comporta muito mais como um hormônio do que como uma vitamina comum. Costumo dizer que é uma espécie de irmã do cortisol: ajuda a desinflamar o organismo e participa do bom funcionamento de praticamente todos os outros hormônios.
Quando ela está em falta, não é só um sistema que sente. É o conjunto que perde afinação, incluindo a regulação do açúcar no sangue e o próprio metabolismo. É justamente essa atuação ampla que a conecta ao peso. Níveis adequados costumam acompanhar um metabolismo mais bem regulado, enquanto a deficiência aparece com frequência ao lado de um corpo que acumula gordura com mais facilidade e a perde com mais resistência.
Como a deficiência de vitamina D atrapalha o emagrecimento
Há mais de um caminho, e gosto de explicá-los porque revelam o quanto o emagrecimento é mais complexo do que parece. O primeiro é a resistência à insulina. A insulina é o hormônio que coloca o açúcar para dentro das células. Quando o corpo passa a responder mal a ela, sobra açúcar circulando, e o organismo tende a estocá-lo como gordura, sobretudo na região abdominal. A deficiência de vitamina D foi associada a esse cenário de pior sensibilidade à insulina, o que joga contra quem quer emagrecer.
O segundo caminho é o apetite. Existe um hormônio chamado leptina, produzido pela própria gordura, cuja função é avisar ao cérebro que já basta, que pode parar de comer. Alguns estudos relacionam níveis baixos de vitamina D a uma resposta pior a esse aviso, como se o sinal de saciedade chegasse abafado. O resultado prático é fome que não corresponde à real necessidade. Repare no padrão: nenhum desses mecanismos tem a ver com força de vontade. Tem a ver com fisiologia.
Vale um cuidado importante sobre a direção dessa relação. A investigação científica sugere que o excesso de peso também tende a reduzir os níveis de vitamina D, e não apenas o contrário. Ou seja, os dois se retroalimentam, o que reforça por que tratar um número isolado raramente resolve o quadro.
Então tomar vitamina D faz emagrecer?
Aqui preciso ser honesto, porque a indústria de suplementos adoraria que a resposta fosse “sim”. Não é tão simples. A vitamina D não é uma chave que liga o emagrecimento. Ela é uma das muitas engrenagens de um sistema que inclui tireoide, cortisol, saúde do intestino, sono, qualidade da alimentação e equilíbrio hormonal. Repito sempre, porque é a verdade: nesse corpo, tudo é multifatorial.
Já vi pessoas com a vitamina D ótima e ainda assim sem resultado, porque o cortisol estava desregulado ou o intestino, comprometido. Corrigir uma deficiência real pode ajudar a destravar o terreno. Tomar por conta própria, apostando que um nutriente isolado vai derreter gordura, é ignorar tudo o que existe ao redor. E o excesso, vale dizer, também tem os seus riscos, o que torna a suplementação sem critério uma escolha imprudente.
O ponto é outro. Se a sua dieta está travada apesar de todo o esforço, talvez o corpo esteja tentando avisar que falta avaliar o que a balança não mostra. É esse tipo de investigação hormonal, metabólica e individual que fazemos no Instituto Avantgarde. Não à toa, escrevo sobre por que emagrecimento sem uma boa avaliação metabólica costuma ser um desafio para o sucesso duradouro, exatamente por deixar de fora peças como essa.
Se você se reconhece nessa luta contra a balança, o próximo passo não é apertar mais a dieta, e sim descobrir o que está regulando o seu corpo por baixo dela.
Referências
- Pourshahidi, L. K. (2015). Vitamin D and obesity: current perspectives and future directions. Proceedings of the Nutrition Society, 74(2), 115–124. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25359323
- Vimaleswaran, K. S. et al. (2013). Causal relationship between obesity and vitamin D status: bi-directional Mendelian randomization analysis of multiple cohorts. PLoS Medicine, 10(2), e1001383. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23393431








