Quase toda semana recebo no consultório uma pessoa surpresa com o próprio exame. Ela mora num país tropical, tem sol o ano inteiro e, ainda assim, a vitamina D aparece baixa. É uma reação compreensível, e revela um equívoco que vejo se repetir. Ter sol lá fora não é a mesma coisa que ter vitamina D dentro do corpo.
Entender a importância da vitamina D começa exatamente aí, nessa distância entre o sol que bate na janela e o que de fato vira nutriente na sua circulação. Ao longo deste texto, portanto, quero mostrar por que a deficiência ficou tão comum, por que a comida raramente resolve e por que repor com critério importa tanto quanto repor.
Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).
Se temos tanto sol, por que falta vitamina D?
A vitamina D é fabricada pelo próprio corpo. A pele a produz quando recebe um tipo específico de radiação solar, os raios UVB. O detalhe que quase ninguém sabe é o quanto essa produção é exigente. Não é qualquer sol que serve.
O solzinho gostoso do início da manhã, tão recomendado, é justamente o que pouco contribui para essa síntese. Os raios necessários estão no sol mais forte, do meio do dia, aquele do qual a maioria de nós foge. Além disso, não basta expor o rosto e as mãos por alguns minutos. Seria preciso uma área considerável do corpo, sem protetor, por um tempo bem maior que os famosos quinze minutos.
Faz sentido quando olhamos para a nossa história. O ser humano foi formado para viver ao ar livre, com boa parte da pele exposta. Era essa a dose natural de sol. O modo como vivemos hoje, abrigados e cobertos, está muito distante disso. Passamos o dia em casa, no carro, no escritório, quase sempre protegidos do horário que produziria a vitamina.
E os alimentos, não resolvem?
Essa é uma esperança natural, mas a resposta sincera é: dificilmente. A quantidade de vitamina D presente nos alimentos é pequena demais para suprir o que o corpo precisa. Você teria de comer porções pouco realistas, todos os dias, para chegar perto do ideal só pela comida.
Há ainda um detalhe sobre a absorção. A vitamina D é lipossolúvel, ou seja, dissolve-se em gordura. Para ser bem aproveitada, ela precisa estar acompanhada de gordura e apresentada no formato certo. Esse é um dos motivos pelos quais não basta tomar uma vitamina D qualquer: a qualidade e a forma do que se usa também pesam no resultado.
Por isso, na prática, a suplementação virou o caminho mais seguro e eficiente para a maioria das pessoas. Mas este “mas” é importante. Suplementar não é simplesmente engolir uma cápsula. O objetivo é atingir um nível adequado, e isso varia de pessoa para pessoa. É algo que se acompanha com exames e orientação, não que se resolve no chute.
Por que a vitamina D importa tanto?
Porque ela está longe de ser apenas a vitamina do osso. Na verdade, comporta-se mais como um hormônio do que como uma vitamina comum. Tem um parentesco funcional próximo do cortisol: ajuda a desinflamar o organismo e participa do funcionamento de outros hormônios.
Ela também está ligada à imunidade de um jeito que vai além do que se imagina. A vitamina D estimula a produção de uma substância de defesa natural do corpo, uma espécie de antimicrobiano que fabricamos por conta própria. Não à toa, níveis baixos costumam acompanhar quem vive gripado, demora a se recuperar de infecções ou convive com quadros autoimunes.
Some-se a isso o papel reconhecido na prevenção de uma série de doenças. Manter um nível adequado não é vaidade nem modismo. É um dos pilares mais simples, e mais negligenciados, de uma estratégia de saúde a longo prazo. Vale reforçar, porém, que não existe um único número ideal igual para todo mundo, e que a vitamina D quase nunca aparece sozinha: com frequência ela vem acompanhada de outras carências, como detalho em a deficiência de vitaminas e minerais.
Como repor com critério
O princípio que eu gostaria que ficasse é este: um número no exame só faz sentido quando lido junto com os seus sintomas e a sua história. Descobrir onde você está e até onde precisa chegar é um trabalho de avaliação individual, exatamente o que fazemos no Instituto Avantgarde.
Na prática, isso significa medir, interpretar dentro do seu contexto e ajustar a dose com acompanhamento. Assim, em vez de repetir cápsula no escuro, você repõe o que falta, na forma certa, até o nível que faz o seu corpo funcionar melhor. É a diferença entre tomar vitamina D e, de fato, ter vitamina D.
Se faz tempo que você não verifica esse exame, ou não sabe se está repondo da forma certa, o próximo passo é simples: investigar o seu caso com profundidade.
Referências
- Holick, M. F. (2007). Vitamin D deficiency. New England Journal of Medicine, 357(3), 266–281. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17634462
- Pludowski, P. et al. (2018). Vitamin D supplementation guidelines. Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology, 175, 125–135. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28216084
- Amrein, K. et al. (2020). Vitamin D deficiency 2.0: an update on the current status worldwide. European Journal of Clinical Nutrition, 74(11), 1498–1513. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31959942








