Demência é sorte ou genética? É uma das perguntas que mais escuto no consultório, e costumo responder, de saída, que a resposta verdadeira não é nenhuma das duas isoladamente. A demência afeta, antes de tudo, a capacidade de lembrar, em especial as memórias recentes. Esquecer algo que se fez minutos atrás assusta quase todo mundo, e com razão.
Vale lembrar que a demência é uma categoria que abriga várias doenças, sendo o Alzheimer a mais conhecida de todas. O problema prático é que o tratamento, na rotina, só começa quando o diagnóstico está confirmado, e a prevenção costuma se resumir a conselhos genéricos. Quero propor aqui um olhar diferente, começando por desmontar a ideia de que tudo se resume a herança ou a azar.
Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).
“Mantenha a mente ativa” resolve?
O conselho mais repetido é manter-se ativo: estudar, ler, exercitar o intelecto. E ele faz sentido, porque a chamada reserva cognitiva realmente protege e adia o aparecimento dos sintomas. Grandes revisões sobre prevenção, como a da Lancet Commission, apontam o estímulo cognitivo e a escolaridade entre os fatores associados a menor risco.
Mas há um ponto que trato como hipótese, não como certeza fechada. Alguns estudos descrevem um paradoxo: quando a demência enfim se manifesta em alguém de grande atividade intelectual, a doença por trás dela costuma já estar mais avançada, porque a própria reserva mascarou os sintomas por mais tempo. Ou seja, ser intelectualmente ativo não é uma blindagem; é, provavelmente, um atraso na linha de chegada dos sintomas, e segue valendo muito a pena.
Como leio isso na clínica, ainda como leitura pessoal? Provavelmente o que pesa não é o ato de pensar, e sim o estilo de vida que costuma acompanhar quem vive em alta produtividade. O cérebro é um órgão extremamente sensível à sobrecarga de estímulo. A cafeína em excesso, o álcool e certas substâncias usadas para “render mais” empurram o sistema nervoso para o extremo. Talvez não seja a leitura que faça mal, mas o que a rotina sobrecarregada traz junto.
Demência é sorte ou genética? O que pesa de verdade
Boa parte do risco depende de alterações metabólicas. O exemplo que considero mais decisivo é a relação entre demência e açúcar. A literatura médica chega a tratar o Alzheimer como uma espécie de “diabetes tipo 3”, a ponto de essa expressão circular nos próprios artigos científicos. A leitura que faço é direta: glicose em excesso também desgasta o neurônio, por um mecanismo de hiperestimulação parecido com o dos estimulantes.
Some-se a isso a ação de mediadores inflamatórios e a exposição a metais pesados, tema que vem sendo investigado pela possível relação com a saúde do cérebro a longo prazo. Em um cérebro com pouca defesa, esse tipo de sobrecarga pode se acumular. Por outro lado, um cérebro bem nutrido depende de gordura de boa origem para se manter. Por isso, quando me perguntam se a demência é sorte ou genética, sigo respondendo: nenhuma das duas. É uma somatória de hábitos com alterações metabólicas que, claro, têm relação com a genética, mas que pode ser manejada.
E há um detalhe decisivo: a demência tem progressão muito lenta, levando décadas até dar os primeiros sintomas. Essa lentidão é, ao mesmo tempo, a má notícia e a oportunidade, porque há muito tempo para agir antes.
Ter demência pode ser, em parte, uma escolha?
Vou dizer de forma provocativa, porque acredito nisso: em alguma medida, o terreno da demência é construído, só que nem sempre de forma consciente. Entre os principais estímulos à neurotoxicidade está tudo o que leva o cérebro à hiperestimulação: café em excesso e substâncias afins, açúcar, bebidas energéticas, álcool, carboidratos e o estresse crônico. Os fatores genéticos e metabólicos, por sua vez, definem a velocidade e a gravidade com que a doença se instala, mas não escrevem o desfecho sozinhos. É por isso que insisto: a genética costuma comandar mais o ritmo do que o destino.
A consequência prática é encorajadora. Para reduzir esse risco, o primeiro passo é mudar hábitos: criar momentos reais de relaxamento, não trabalhar até a exaustão e retirar da rotina os estímulos tóxicos. E, havendo fatores familiares envolvidos, vale procurar um médico que faça uma avaliação metabólica adequada, capaz de orientar nutrientes e cuidados que ajudem a frear a parte ligada à genética.
O que eu gostaria que ficasse
Cuidar do cérebro tem tudo a ver com cuidar do metabolismo, e o mesmo raciocínio vale para o humor: aprofundo essa conexão em depressão ou distúrbio mitocondrial. A mensagem central é que a demência é lenta, e é precisamente por ser lenta que oferece tanto espaço para a prevenção, desde que ela comece cedo.
Entender o seu terreno metabólico, sobretudo se há histórico na família, é o tipo de avaliação que muda o rumo da prevenção. Se esse tema preocupa você, o próximo passo é investigar a fundo.
Referências
- de la Monte, S. M., & Wands, J. R. (2008). Alzheimer’s disease is type 3 diabetes – evidence reviewed. Journal of Diabetes Science and Technology, 2(6), 1101–1113. doi.org/10.1177/193229680800200619
- Livingston, G. et al. (2020). Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, 396(10248), 413–446. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32738937








