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Depressão ou distúrbio mitocondrial? Investigue a causa

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Depressão ou distúrbio mitocondrial — ilustração da energia celular e do humor | Instituto Avantgarde

Depressão ou distúrbio mitocondrial? Essa pergunta me acompanha em boa parte das consultas. Quando um paciente me descreve dificuldade de tocar as tarefas do dia, falta de vontade, fadiga que não passa, pensamento lento e mau humor, sei que estou diante de um conjunto de sintomas que a medicina costuma reunir sob um único nome: síndrome depressiva.

É um rótulo que organiza o sofrimento, mas, em muitos casos, ele para cedo demais na investigação. Por isso quero propor um olhar adicional: aquela “depressão” pode ser, na verdade, também uma falha na produção de energia das células? A resposta muda bastante o que se investiga, sem tirar o valor do acompanhamento que a pessoa já faz.

Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).

Por que chamo a depressão de “diagnóstico de exclusão”

Há um princípio clínico que considero essencial: a depressão deveria ser um diagnóstico de exclusão. Ou seja, antes de concluir que o problema está apenas na produção de neurotransmissores, deveríamos investigar outras causas capazes de produzir exatamente os mesmos sintomas. E são muitas.

Sempre que algo no organismo compromete o bom funcionamento do cérebro, surgem sinais que podem ser lidos como depressão. As disfunções da tireoide são tão reconhecidas que é praticamente obrigatório pedir exames dela antes de iniciar um antidepressivo, e não por acaso: a tireoide é peça central na entrega de energia às células. A adrenal, que produz o cortisol, também aparece cada vez mais associada a quadros depressivos na literatura. E há ainda a resistência à insulina, hoje muito comum, que compromete a chegada de combustível às células, inclusive às do cérebro.

Ponto-chave: nada disso significa abandonar o tratamento psiquiátrico ou desconfiar do seu médico. O acompanhamento psiquiátrico é importante e, em muitos casos, indispensável. O que proponho é somar, investigando as causas metabólicas em paralelo.

Depressão ou distúrbio mitocondrial: o que investigar

Dentro de quase todas as células existe um pequeno órgão chamado mitocôndria. É ela que gera a energia que mantém a célula, e o corpo inteiro, funcionando. Pense nela como a usina de energia da célula. Para mim, a saúde dessa usina está no centro de praticamente tudo, de qualquer problema e de qualquer solução.

Por muito tempo se presumiu que, se a pessoa está viva, suas mitocôndrias estão funcionando bem. Não é bem assim. Essas estruturas são sensíveis a vários tipos de estresse, químico, físico e emocional, e, quando produzem menos energia do que deveriam, as repercussões são amplas. O cérebro é o primeiro a sentir. Em um adulto, ele consome cerca de 20% da energia gasta em repouso, mesmo representando só 2% do peso do corpo.

Estudo: revisões em psiquiatria descrevem relações consistentes entre disfunção mitocondrial e transtornos do humor, incluindo a depressão, o transtorno bipolar e quadros neurodegenerativos. Morris & Berk, BMC Medicine (2015)

Esse dado ajuda a explicar por que uma falha na produção de energia se manifesta tão fortemente no humor, na clareza de pensamento e na disposição. Muitas vezes, aquilo que se rotula como desânimo profundo é, na raiz, falta de energia chegando ao cérebro. Não à toa, o mesmo terreno metabólico que discuto quando falo de memória, em demência é sorte ou genética, reaparece aqui, no humor.

Então o cansaço pode ser metabólico?

Quando o cansaço e a fraqueza são protagonistas do quadro, não um detalhe, mas a queixa central, fico especialmente atento à possibilidade de uma disfunção na produção de energia. E aqui há uma boa notícia: melhorar o funcionamento energético do corpo tende a ajudar qualquer condição que tenha, na sua base, o esgotamento.

Existem medidas de estilo de vida com impacto real sobre a saúde mitocondrial, e a literatura sugere que mudanças desse tipo podem fazer diferença, sobretudo quando o problema ainda está no início. Não vou transformar isto em receita, porque cada caso pede uma leitura própria, mas o princípio é claro: cuidar do terreno em que o cérebro funciona é parte do cuidado com a mente.

O que eu gostaria que ficasse

A mensagem central é esta: nem todo desânimo profundo é “só” depressão, e reconhecer isso não diminui ninguém nem desautoriza tratamento algum. É um convite a investigar com mais profundidade, tireoide, adrenal, metabolismo, energia celular, junto com o acompanhamento que você já faz.

E reforço, porque é importante: se você usa antidepressivo, não o suspenda por conta própria. Qualquer mudança é uma decisão a ser tomada com o seu médico. O que ofereço é um olhar adicional, metabólico, sobre o que pode estar por trás de como você se sente.

Se você se reconhece nesses sintomas e sente que falta uma investigação mais profunda, o próximo passo é somar o olhar metabólico ao cuidado que já existe.

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Referências

  1. Morris, G., & Berk, M. (2015). The many roads to mitochondrial dysfunction in neuroimmune and neuropsychiatric disorders. BMC Medicine, 13, 68. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25889215
  2. Bansal, Y., & Kuhad, A. (2016). Mitochondrial dysfunction in depression. Current Neuropharmacology, 14(6), 610–618. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26923778

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