A relação entre a dieta cetogênica e Alzheimer é uma das perguntas mais intrigantes da neurociência atual, e também uma das mais mal contadas. Tenho um interesse antigo por uma ideia que, à primeira vista, soa estranha: a de que algumas doenças do cérebro talvez tenham, no fundo, um problema de energia. Não só de química dos neurotransmissores, mas de combustível. E poucas condições levantam essa questão de forma tão fascinante quanto o Alzheimer.
Quero ser claro desde a primeira linha, porque o assunto é sério. O Alzheimer não tem cura, e quem promete curá-lo com uma dieta está fazendo um desserviço. O que vou apresentar aqui é uma linha de pesquisa, uma pista que a ciência segue com cuidado. É interessante justamente por isso, não porque resolve alguma coisa. Portanto, leia como quem acompanha uma investigação, e não como quem recebe uma prescrição.
Dr. Alexandre Duarte é médico do Instituto Avantgarde, com atuação em Metabologia (CRM-SP 162757).
Por que pensar no Alzheimer como um problema de energia
O cérebro é um órgão caríssimo de manter. Mesmo em repouso, ele consome uma fatia enorme de toda a energia do corpo. E o seu combustível mais óbvio, ao longo de quase toda a vida, é a glicose, o açúcar que vem da alimentação. Dentro de cada célula existe a mitocôndria, a estrutura onde a energia de fato se produz, e uma das rotas que ela usa parte justamente da glicose.
Acontece que, no cérebro com Alzheimer, pesquisadores observam algo curioso: as regiões afetadas parecem ter dificuldade crescente de captar e usar essa glicose. É como se houvesse comida no prato, mas o garfo não funcionasse direito. O combustível está disponível no sangue, porém a célula não consegue aproveitá-lo como deveria. O resultado seria um cérebro com fome em meio à abundância, com neurônios que, sem energia, funcionam mal e adoecem.
Repare que essa forma de olhar coloca o metabolismo, o modo como a célula produz energia, no centro da história, e não num canto. Isso não explica a doença inteira, é bom dizer. O Alzheimer é complexo e envolve placas, inflamação e genética. Mas a pergunta “e se faltar combustível for parte do problema?” abriu uma porta que vale a pena acompanhar.
Onde entra a dieta cetogênica
A parte que considero mais engenhosa vem agora. O corpo humano nunca dependeu apenas de glicose. Ele tem uma segunda fonte de energia, que parte da gordura. Quando os carboidratos ficam muito escassos por um tempo, o organismo passa a usar essa rota e fabrica, a partir da gordura, umas moléculas chamadas corpos cetônicos.
Os corpos cetônicos têm uma propriedade especial. Eles atravessam a barreira que protege o cérebro e podem ser usados pelos neurônios como energia, por um caminho diferente do da glicose. Vale lembrar que o próprio corpo produz a glicose de que precisa a partir de outras fontes. Ou seja, reduzir o açúcar da alimentação não deixa o cérebro sem combustível.
A hipótese em estudo é mais ou menos esta: se a estrada da glicose está congestionada no cérebro com Alzheimer, talvez oferecer uma estrada alternativa de energia ajude as células a continuar funcionando. É isso que a dieta cetogênica, e algumas bebidas e suplementos derivados dela, tentam explorar nas pesquisas.
O que a dieta cetogênica e o Alzheimer mostram nos estudos
É aqui que eu peço prudência. Existem trabalhos, alguns em animais e alguns pequenos em humanos, que observaram sinais animadores: melhora em certas medidas de memória e menos marcadores de inflamação em modelos animais. São resultados que justificam continuar pesquisando, não anunciar vitória.
Traduzindo: é cedo para prometer qualquer coisa. Quem tem Alzheimer na família e lê este texto não deve mudar a alimentação de um familiar adoecido por conta própria. E, principalmente, não deve suspender nenhum tratamento prescrito com base em um artigo de blog. Uma dieta com esse grau de restrição, ainda mais em pessoa idosa ou fragilizada, só faz sentido sob acompanhamento médico individualizado, que pese riscos e benefícios caso a caso.
Por que esse olhar metabólico importa para você
A razão pela qual eu escrevo sobre isso não é vender uma dieta. É mostrar uma forma de pensar a medicina: olhar para o metabolismo como peça central da saúde, inclusive da saúde do cérebro. Quando entendo a fundo como o corpo produz e usa energia, consigo explicar o que está acontecendo, em vez de apenas dar nome a um sintoma.
Essa perspectiva, a de que o modo como o corpo gera energia influencia órgãos que a gente nem associava a isso, aparece em outras histórias. Ela está por trás, por exemplo, da discussão sobre depressão como possível distúrbio mitocondrial, em que a falência energética da célula também entra em cena. É o mesmo fio condutor que move o trabalho que fazemos no Instituto Avantgarde.
A lição que eu gostaria que ficasse é esta: a relação entre cetose e cérebro é uma pergunta científica legítima e empolgante, não uma receita pronta. Ela merece seguir sendo estudada com rigor, e merece que ninguém a transforme em falsa esperança.
Se você se interessa por uma avaliação que enxerga o seu metabolismo como um todo, o próximo passo é conversar com quem investiga o corpo por inteiro, e não apenas um exame isolado.
Referências
- Cunnane, S. C. et al. (2016). Can ketones help rescue brain fuel supply in later life? Implications for cognitive health during aging and the treatment of Alzheimer’s disease. Frontiers in Molecular Neuroscience, 9, 53. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27458340
- Krikorian, R. et al. (2012). Dietary ketosis enhances memory in mild cognitive impairment. Neurobiology of Aging, 33(2), 425.e19–425.e27. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21130529
- Phillips, M. C. L. et al. (2021). Randomized crossover trial of a modified ketogenic diet in Alzheimer’s disease. Alzheimer’s Research & Therapy, 13, 51. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33622392








